de três dedo


Ellos y los taxistas. by Allan Oliveira
outubro 7, 2009, 3:07 pm
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Uma das coisas mais “mão-na-roda” de Buenos Aires são os táxis. A gente se impressiona com a quantidade deles rodando pela cidade, durante 24 hs. Ao contrário do Brasil, os táxis argentinos recebem subsídios do governo (sobretudo em combustíveis), o que os torna muito mais baratos e uma opção viável como transporte (o metrô e os ônibus também são muito baratos, comparativamente ao Brasil). E como em qualquer lugar do mundo, os taxistas são fonte privilegiada de informação sobre a cidade. Qualquer antropólogo que estuda cidades sabe: quer um bom informante, ache um taxista.

Pois se o assunto é futebol então… E já no primeiro táxi que tomei (do aeroporto até o apê onde fiquei hospedado) pude matar minha curiosidade. Queria ouvi-los sobre Maradona. E, para minha surpresa, nos quase 20 Km de trajeto, o taxista desceu a lenha em Diego Armando, vulgo “Dios” Maradona. Sim, eles falam mal do homem. E muito. No começo pensei que era exceção. Talvez fosse um hincha de River, com recalques dos anos 80. Mas não. Em banquinhas, nos jornais, em revistas de humor, outros taxistas, muita gente, se assume para quem quiser ouvir “Maradona no”.

Isto quer dizer que gostam menos do cidadão? Não. Pelo contrário. É uma prova mais de que Diego Armando faz qualquer coisa pela seleção de seu país. Há um ou outro que ainda reclama algo mais, como “ele se perdeu”, “é uma invenção da imprensa” ou “nunca foi tudo isto”. Mas a maioria das pessoas com quem conversei a respeito foi taxativa: “o cara entrou numa gelada”, mas fez isto porque faz qualquer negócio pela seleção. Ou seja, reforçou sua posição de “Dios”. Se tem um culpado que aparece sempre, SEMPRE, ele se chama Julio Grondona (presidente da AFA). Se a Argentina não se classificar para o Mundial (e é vero: há uma certa expectativa em BsAs de que isto ocorra) claro que vão xingar Maradona, reclamar de sua figura, mas Julio Grondona vai ter que se mudar de país. 

Grondona, inclusive,  é apontado para o fato de que dois dos melhores técnicos argentinos não aceitem dirigir a seleção: Ramon Díaz e Carlos Bianchi. Na primeira vez que estive lá, em 2004, perguntei numa roda com alguns conhecidos portenhos, de “por que não Bianchi”? Eles se olharam em silêncio, meio desanimados, e me disseram que Bianchi se recusa a trabalhar com Grondona. Vale lembrar que este senhor tem fortes suspeitas de ligação com o tráfico internacional de armas…

No penúltimo dia de viagem, num táxi, um motorista percebendo que eu era brasileiro, me puxou: “e Dunga”? Disse a ele que, apesar das críticas, Dunga conseguiu ficar na seleção e deve ir até a copa, que o time achou um padrão de jogo (com o qual eu, particularmente, discordo…) e patatipatatá. “E nunca pensaram em Pelé”?, me perguntou. Disse a ele que já houve boatos neste sentido, mas nada muito certo, e que nossa relação com Pelé era diferente da deles com Maradona. Nós separamos alhos e bugalhos: pode ter sido grande jogador, mas a ser técnico vai uma grande diferença. “E ele aceitaria”?, me devolveu. Parei, alguns segundo, pra pensar, e disse que não. Disse a ele que Pelé tem um zelo com sua imagem que o impede de fazer “qualquer negócio” e dei como exemplo sua recusa em não jogar a copa de 74. Ele me escutou e me disse: “bem, não me surpreenderá se encontrarmos Maradona daqui uns anos, pobre, dirigindo um táxi. Ele não se preocupa muito com isto, com imagem, com que vão pensar. Essa é a diferença”.

Lembrei automaticamente de Paulo Mendes Campos falando de Garrincha. Vale lembrar que Paulo Mendes Campos morreu defendendo que o Mané era muito melhor do que Pelé. Não porque tivesse feito mais dentro de campo, mas simplesmente porque era mais humano.

Desci do táxi pensando nestas palavras: “rei” pra uns; “dios” pra outros. Talvez elas falem muito sobre nossas diferenças com relação a nuestros hermanos.

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Em terra de tango, texto se chama “drama”… by Allan Oliveira
setembro 10, 2009, 1:15 pm
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Curioso ver los hermanos nessa zica futebolística. Desde 1974, os caras estão em todas. Em 70 não foram depois de um empate de 2 a 2 na Bombonera com o Perú de Cubillas e cia (o Perú fou pra copa e fez um jogão contra o Brasil). Mas depois disto, foram em todas. E mais: foi a seleção que mais adquiriu prestígio internacional neste período. O Brasil já tinha; França?, precisa ganhar outra copa; Holanda, fora o carrossel, que mais?. A Argentina em 4 copas (78, 82, 86 e 90) ganhou duas e foi vice em outra. Se não bastasse ainda revelaram o Maradona (para mim, o ÚNICO sujeito na face da terra que ganhou uma copa sozinho. Falam do Garrincha em 62, mas se olhamos a escalação, caso ele saísse, tínhamos time para ganhar. Veja a Argentina de 86…). Duas copas e Maradona: é muito.

Mais curioso ainda é pensar a relação com o Brasil. Até 1958, o Brasil era a terceira força regional do futebol. Ficávamos atrás deles e dos uruguaios. Já vi mais de um cidadão com mais de sessenta anos comentando isto. A diferença é que nos tornamos mundialmente famosos antes deles. E isto tem um nome: o período 58-70, o único momento onde o Brasil, de fato, era superior a todos. Ali, viramos o jogo. Argentina e Uruguai podiam ganhar as copas América todas. Para nós, a copa do mundo. Um amigo meu, portenho, comentou comigo: “o que nos chama mais atenção aqui na Argentina, é que vocês, brasileiros, nos últimos anos (década de 90), começaram a ganhar libertadores e copa América. Antes só ganhavam copa do mundo”. Agora, além de ter que engolir, desde 70, um Brasil bem na fita no exterior, eles têm que aturar um Brasil bem na fita regionalmente.

    Esta semana fiquei acompanhando de perto a cobertura do Olé! e do La Nación sobre os jogos das eliminatórias. Duas coisas me chamaram a atenção. A primeira foi a maneira como os jornais tratavam a ida do jogo contra o Brasil para Rosário (desconfiados antes do jogo, críticos depois). Os jornais falavam de Rosário como se fosse outro planeta e não o próprio país. Curioso isto. Para eles, parece a seleção só pode e deve jogar em Buenos Aires. Quando se fala em “nacional” ou “nação”, está se falando de Buenos Aires. Este era o sonho do Rio de Janeiro… A impressão que tenho é que Buenos Aires conseguiu, historicamente, o que o Rio tentou nos anos 30 e 40: ser o centro. O Rio conseguiu em termos, mas os regionalismos no Brasil sempre falaram mais alto. Tenho escrito sobre para a música: atualmente, em determinados circuitos musicais, quando se fala em Brasil, se olha para o Nordeste e não para o Rio (vide, por exemplo, a programação, nos últimos anos do festival de jazz de Montreaux: só dá grupo de axé music). A Argentina, mesmo aos olhos externos, é Buenos Aires. E nesta história do jogo, isto ficou evidente.

    Um outro ponto que me chamou a atenção, e isto não é de hoje, é o tom dramático do jornalismo esportivo. O que pra nós aparece como espaço de colunistas, um texto mais subjetivo, para eles é o básico de qualquer jornalista. Experimente ler, tanto no Olé quanto no La Nación (lembrando que um é “meio de esquerda”, ligado ao Clarín, e o outro é “meio de direita”), as reportagens normais, de jornalistas da redação e os colunistas. O estilo é praticamente o mesmo: extremamente subjetivo.

    Vejam um texto que saiu no Olé sobre o Messi, logo após a derrota para o Paraguai (tomar gol com Cabañas tabelando, é de doer…). É assinado por um jornalista chamado Adrian Piedrabuena:

     Hagámonos cargo, primero, por hacer de Lionel Messi algo que no es. Que nunca fue. Que quizá lo sea alguna vez, pero no hoy, ahora, ya, cuando esperábamos un no se qué, algo que vimos de él por ráfagas (en el Juvenil, en la Copa América, como el gol a México, hace tanto ya), algo que nos muestra en otro país, con otra camiseta y otros compañeros. Nos quedamos con el numerito de su cotización, de su cláusula de rescisión, de lo que cobra cada vez que respira. Pero eso no gana partidos. En cambio, nos olvidamos de lo que dice -o no dice- con los colores de acá, del liderazgo que esperamos cada tarde, de ese destello de genialidad que creemos que vendrá, pero que nos pasa de largo como un bondi impiadoso. Pero basta, habrá que asumir que al final Caruso tiene razón, y el pibe necesita aterrizar, creerse uno más, morder un poco de banco, a ver si se revela, o si se rebela…

    Porque en el fondo lo triste fue eso, ver a Messi entregado como un delantero que está de vuelta, que se cansó de pelear, que ya no le dan más sus huesos. Pero Messi ni peleó, no mostró más emoción más que fastidio, desidia, desinterés, desgano. Seguramente por dentro sentirá otra cosa, vaya uno a saber, pero lo que aflora es lo otro. Y eso es imperdonable para quien lleva una camiseta gloriosa que antes llevaron otros, gente de otro espíritu, de otro corazón. Cada gambeta suya fue un lamento, arrancó siempre sabiéndose que iba al muere, que no iba a poder. Y no pudo nunca. Por lo menos, hubiera pegado una patada, no porque esté bien, por favor, sino porque al menos hubiera sido un síntoma, un indicio de que un partido así, una actuación así, le duele, y le sale la bronca por algún lugar.

    Pero no. Jugó del primer al último minuto igual, como se juegan los amistosos indeseables, como jugó alguna vez con esta camiseta (Perú, Chile), algo que Basile sufrió y sus códigos le impidieron dar testimonio. Pateó una sola vez al arco en jugada, Lionel, un tiro mordido, miserable para lo que su talento potencial puede dar, indigno de su jerarquía. Y a siete del final, con el equipo hecho jirones, con Palermo y Schiavi como salvadores, Messi tuvo un tiro libre para su zurda, para poder inventar algo, un centro al corazón del área, al fin y al cabo no es tan difícil… Pero hamacó su cuerpo y sacó un disparo alto, sin compromiso, un tiro inentendible, fatal, tan propio de este chico de carne y hueso, sin PlayStation, ni marketing, que anoche fue tan terrenal, tan vulnerable”

    Assim, na Folha ou no Lance, só nas colunas. E olha lá. Li certa vez sobre uma reforma histórica que o JB fez nos anos 50 na redação. Até então, o texto jornalístico era influenciado pelo periodismo francês, bastante subjetivo. O JB deixou isto de lado e começou a tomar como modelo o jornalismo norte-americano, mais seco e objetivo – com a subjetividade restrita a uns poucos colunistas. Boa parte da grande imprensa acabou seguindo o JB nesta direção (bem até demais, se lembrarmos este estilo “sitcom” de Veja e cia…). Talvez na Argentina os caras ainda olhem para Paris. Impressão apenas, mas interessante para a gente ver como eles cobrem el fútbol.

      A confirmar: parece que agora a repescagem é com a Concacaf e não com os times da Oceania. Se terminasse hoje, a Argentina disputaria vaga com o quarto lugar da Concacaf: Costa Rica. Já imaginaram, por um acidente, se fosse o México… que delícia iria ser…