de três dedo


O poço paulista do futebol carioca by Allan Oliveira
agosto 24, 2009, 5:01 am
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Pronto, bastou os times do Rio se darem mal em algumas rodadas seguidas (duas) e praticamente toda a imprensa vem com a velha ladainha “a crise do futebol carioca”. Ladainha esta que já dura uns dez anos, no mínimo. Desde a queda do Fluminense pra segundona (a primeira em 96 e a segunda em 97), corroborada pelos fiascos do Flamengo entre 2000 e 2005, e os rebaixamentos de Botafogo e Vasco (2002 e 2008, respectivamente), virou ponto pacífico na imprensa esportiva afirmar que o futebol carioca está em crise e patatipatatá.

Longe de mim defender os times do Rio. Pra quem viu o futebol carioca nos anos 80, com o timaço do Flamengo (80 a 83) e o grande time do Fluminense entre 83 e 85 (com Paulo Vítor, Jandir, Tato, Romerito, Branco, Ricardo Gomes, Washington e Assis), ver o futebol praticado pelos times do Rio hoje chega a ser cômico. Mas daí a enterrar a sete palmos SÓ o futebol carioca vai uma distância grande…

O problema é rebaixamento? Bem… atualmente, dos times que disputam a série A do Brasileirão só cinco equipes nunca andaram pela série B: São Paulo, Santos, Cruzeiro, Flamengo e Internacional (embora isto seja injusto com equipes como Barueri e Santo André, que também nunca foram rebaixadas). O SPFC já caiu, mas foi no Paulistão de 90 e não no Brasileirão. Curioso ver um time do Rio nesta lista. Argumento da imprensa: “é, não caiu, mas várias vezes não caiu por pouco”. Mas qual a equipe que nestes 38 anos de campeonato nunca beirou o rebaixamento? Ou seja, rebaixamento por rebaixamento, os times de São Paulo vão ali, junto com os do Rio: basta lembrar a recente história de Palmeiras e Corinthians. Os dos outros estados, então, nem se fala. Todos têm história para contar.

Mais curioso ainda é observar que, quando este discurso começou, na segunda metade dos anos 90, os times do Rio ainda faturavam títulos de expressão nacional. Dos dez campeonatos brasileiros disputados entre 1990 e 1999, três são de equipes cariocas (92 com o Flamengo, 95 com o título justo do Botafogo e 97 com o Vasco). Os outros sete restantes são divididos desproporcionalmente: seis títulos paulistas (SPFC em 91; Corinthians em 90, 98 e 99; Palmeiras em 93 e 94) e um gaúcho (o Grêmio, em 96). No entanto, o futebol carioca já era apresentado como decadente. O título do Vasco em 2000, na Copa João Havelange, apareceu como uma espécie de “lampejo do moribundo”. E títulos recentes, como as Copas do Brasil, conquistadas por Flamengo (2006) e Fluminense (2007) não são nem contabilizadas (sem contar os vice-campeonatos de ambos na mesma competição, em 2003, 2004 e 2005).

Por que, então, esta implicância com o futebol do Rio?

Talvez seja bom ver em perspectiva. Esta propalada queda do futebol carioca é concomitante com uma suposta hegemonia do futebol paulista. Tal hegemonia ganhou destaque nesta década, com sete títulos paulistas dentre nove disputados, desde 2000: com exceção do CAP-2001 e Cruzeiro-2003, todos os títulos brasileiros ficaram em São Paulo (Santos, Corinthians e SPFC). Esta tendência já vinha da década anterior, com os seis títulos brasileiros citados acima. Mas, neste milênio, ela se tornou evidente. Contudo, veja-se aqui mais uma ênfase no Brasileirão. Por que se olharmos para a Copa do Brasil, esta “hegemonia paulista” não se sustenta (haja vista os títulos de Grêmio e Cruzeiro). Ou seja, falar em “hegemonia” paulista significa olhar apenas para um campeonato.

Há, contudo, dois elementos que me parecem pouco comentados sobre esta “hegemonia” paulista: em primeiro, um fortalecimento, ocorrido, nos anos 80, do campeonato paulista, que adquiriu, naquela década, o “status” de “mais difícil do Brasil” (fato corroborado por jogadores e técnicos). Este fortalecimento se expressou na projeção de times do interior do estado, que culminou com o título da Inter da Limeira (1986), com o vice-campeonato do São José (1991) e com a final do estadual disputada por Bragantino e Novorizontino (1990). Nessa época, figuras de expressão como “os times do interior de São Paulo” eram lidos na imprensa como sinônimos de times fortes. O curioso é que este momento de força dos times do interior passou (cadê os times do interior de São Paulo, hoje?), mas a fama do campeonato ficou. Hoje, o campeonato paulista é disputado apenas por 4 times, assim como o do Rio. No entanto, a fama de campeonato difícil ficou.

O segundo elemento talvez dê a chave para tudo isto: a emergência de uma imprensa esportiva baseada em SP. Ou melhor: a transferência do centro da imprensa brasileira para São Paulo. Caetano Veloso, certa vez, num de seus delírios, chamou a atenção para o fato de que, nos anos 90, a Globo e, sobretudo seu jornalismo, tornara-se paulista. No caso da imprensa esportiva isto me parece bastante visível. A imprensa esportiva, nos anos 70 e 80, muito marcada pelo carioca Jornal dos Sports, nos anos 90 viu emergir o braço brasileiro, sediado em São Paulo, da ESPN; a popularização da Folha de São Paulo e seu caderno de esportes e a emergência de diários como o Lance!. Talvez esteja neste fortalecimento da imprensa esportiva paulista a chave para a implicância com o futebol carioca. E aqui cabe lembrar os apontamentos de Pierre Bourdieu que, em textos como “O mercado dos bens simbólicos” nos lembra que o entendimento das posições de status dentro do universo das artes populares deve ser procurado no discurso jornalístico. Talvez ele nem pensasse no futebol ao escrever isto, mas no caso do futebol do Rio e o que se fala dele, me parece bastante plausível.

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